
O sol estava a pino no verão carioca quando a diretora Katia Lund, que roda o making of de Besouro, sentou-se à sombra de uma árvore no jardim do Observatório Astronômico do Valongo, no centro da capital fluminense, para conversar com o escritor, cartunista e publicitário Marco Carvalho, 56 anos, autor do livro “Feijoada no ParaÃso”, que inspirou o diretor João Daniel Tikhomiroff a escrever o roteiro de Besouro. O local da entrevista não poderia ser mais apropriado. O observatório, o mais antigo do Brasil, fica no alto do Morro da Conceição, a poucos metros da Pedra do Sal, local onde nasceu o samba e onde a cidade do Rio iniciou seu crescimento urbano. Um lugar carregado da história brasileira e da memória da cultura negra. Assim como o livro do carioquÃssimo Marco Carvalho.

Por cerca de duas horas, Marco contou para Katia, para a câmera de Will Etchebehere e para o microfone de Paulo Munhoz um pouco do fascÃnio que a história de Besouro exerce sobre os negros e capoeiristas do Brasil e porque ele pode ser considerado um mito tão ou mais especial que outros “outsiders” da cultura nacional, como Zumbi dos Palmares, Lampião e Antônio Conselheiro. Antes da entrevista para o making of, Marco conversou com o blog também.
“Lampião, Zumbi e Conselheiro, para ficar só nestes três exemplos, foram homens que comandavam grandes grupos de revoltosos, homens e mulheres fora-da-lei, e que só se tornaram realmente famosos depois que as forças públicas se lançaram com violência contra eles. Ou seja: antes de virarem os mitos que são hoje, entraram para a História pelo noticiário policial, literalmente pela porta dos fundos”, teoriza Marcos. “Já Besouro era um homem que agia sozinho, e que não teve sobre si quase nenhum registro oficial. Mesmo assim, já era um mito local mesmo antes de morrer, aos 26 anos, e hoje é um personagem conhecido e cultuado no universo da capoeira e dos negros da Bahia graças exclusivamente à tradição oral. São as músicas sobre ele que o perpetuam, através das rodas de capoeira. E isso é um caso raro e poderoso de popularidade de uma personalidade histórica. Algo digno de admiração e estudo”, conclui o escritor.



O próprio Marco Carvalho, aliás, foi um dos brasileiros que descobriu Besouro graças à tradição oral da capoeira. “Conheci sua história quando me tornei um capoeirista também, nos anos 80, aqui no Rio de Janeiro. Já naquela época, fiquei impressionado com a abundância de músicas sobre ele e seus façanhas. Percebi o quanto ele era um mito vivo, mesmo com muito pouca documentação histórica ou literária a seu respeito”, conta.
Começou então a surgir, mais de vinte anos atrás, a ideia de escrever sobre o mito. Pouco a pouco, Marco foi reunindo informações sobre Besouro e seus feitos. Mas apenas em 2002 começou a esboçar o livro. `Feijoada no ParaÃso` ficou pronto em 2004, e dois anos depois Marco estava ajudando João Daniel Tikhomiroff a escrever o primeiro esboço do roteiro para cinema. A versão final, porém, não tem a sua participação, e possui alguns personagens e passagens criados por João Daniel exclusivamente para a tela grande. Nada disso incomoda o escritor. “O filme preserva inteiramente a força do mito, ao mesmo tempo em que torna mais atraente, sob o ponto de vista dramático, o universo que o cercava. Isso é muito bom”, elogia.

A Ãntegra da entrevista de Katia Lund com Marco Carvalho você verá no making of de Besouro, que será lançado junto com o DVD do filme, após a exibição nos cinemas. É só aguardar.