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Besouro e a cultura afro-brasileira: Jessica Barbosa é capa da revista Raça

quinta-feira, 29|10|2009

A protagonista de Besouro está com tudo. Mesmo antes da estreia do filme, em que ela interpreta Dinorah, o amor do herói, e a belíssima Iansã, orixá dos ventos e das tempestades, Jessica Barbosa começa a brilhar, e não é só como mais um rostinho bonito nas telas. Sua postura séria de jovem atriz talentosa, negra e baiana, que ainda por cima é linda, já faz dela uma representante importante da nossa cultura afro, aspecto que a principal revista sobre o tema no país, a Raça, pescou com competência na sua última edição, trazendo para a capa uma reportagem sobre a evolução do cinema negro no Brasil e um perfil de Jessica. Confira no link abaixo:

Revista Raça - Jessica Barbosa: “Ser brasileiro é ser negro”

Besouro abrindo caminhos para o ‘Exu’ de Sérgio Laurentino

segunda-feira, 19|10|2009

Sua primeira cena é assustadora. Para espectadores desacostumados às tradições e crenças da religião afro, ela soará como a entrada de um grande vilão. Mas não é nada disso. Logo fica claro que o orixá Exu é a primeira - e possivelmente a mais importante - de uma série de forças sobrenaturais que ajudarão Besouro a transformar-se num herói. Um personagem tão impactante como esse não poderia ser vivido por ninguém diferente que o ator baiano Sérgio Laurentino. Não por coincidência, ele próprio um devoto da cultura afro. Com uma caracterização tão impactante (basta ver as fotos…) desnecessário dizer o quão emocionante foi para este baiano de 32 anos e quase dois metros de altura viver nas telas um de seus orixás de devoção. Às vésperas de ver o resultado de seu trabalho pela primeira vez, Sergio conversou com o Blog do Besouro. Confira:

Blog do Besouro: Como você acha que as pesssoas ligadas ao Candomblé e outras religiões afro estão aguardando a estréia de Besouro? Acha que elas vão gostar?
Sérgio Laurentino: “Aqui na Bahia todos que encontro dizem que ‘o dono’ da minha cabeça deve estar muito orgulhoso por este personagem. De fato eu, o Bando de Teatro Olodum e todos os segmentos da etnia negra esperamos por este filme. Nada mais justo que colocar os orixás como aquilo que são: deuses. E graças a eles, que estiveram tomando conta de tudo que aconteceu neste filme, Besouro será um sucesso”.

BB: Você já viu alguma versão do filme? Quando irá vê-lo pela primeira vez?
SL: “Ainda não vi. Assistirei à premiére do Rio, na segunda-feira, dia 19. Estou morrendo de curiosidade para ver”.

BB: O que você espera do filme? Sucesso de público e crítica? Só de público? Só de crítica?
SL: “Eu espero o melhor deste filme. Que ele seja sucesso de público e de crítica, e que também seja fonte de estudos para os afro-descendentes. Que ele, como Exu, comunique e preencha todas as lacunas estéticas que nós brasileiros ainda temos quando se trata deste tipo de dramaturgia”.

BB: Já dá para sentir algum impacto de sua participação em Besouro na sua carreira?
SL: “Sim… ontem estava fazendo um espetáculo chamado ‘Africas’, dirigido por Chica Carelle, onde eu faço um feiticeiro africano. No fim da peça, um garoto chegou para mim e disse: ‘Eu e todos na minha escola, que fica no centro de Salvador, estamos loucos para ver Besouro, só para ver você voar’”.

BB: O que você pode dizer sobre a importância de seu personagem na trama? Qual vai ser o impacto que você acha que ele vai ter sobre a audiência?
SL: “Bem… As forças da natureza têm que se comunicar com os mortais. Aí entra o Exu, que instiga a mudança de Besouro e o acompanha até a sua missão ser cumprida. Acho que vai ser impactante ver os olhos vermelhos de Exu, o seu cabelo… Na verdade, acredito que todos os orixás vão ser muito bem vistos e esperados neste filme, pois o João Daniel teve muito cuidado e carinho com estes personagens. Eu que sou da religião, fiquei admirado com esta preocupação”.

BB: Do núcleo negro do filme, você era o único que não lutava capoeira. Como foi lidar com isso? O que a capoeira representa pra você?
SL: “É verdade… Embora admire e respeite muito a capoeira, não pratico. Por isso, também foi muito legal ter tido o convívio e as aulas de capoeira com professores chamados Ailton Carmo, Anderson Grillo e Jessica Barbosa… Todos treinam capoeira há muito tempo, e foi admirável vê-los jogando. Mesmo sabendo que se Exu precisasse, acabaria com qualquer luta rapidinho, com um sopro!! (risos)”

Besouro e Exu posam para a câmera do maquiador Martin

BB: Pra você, Besouro é mais um filme sobre a capoeira, sobre os negros ou sobre os orixás?
SL: “Besouro é um filme de ação, que também fala de amor e de coisas do Brasil. Tudo isso misturado produziu um filme genuinamente brasileiro como jamais se viu.”

BB: Como você vê a forma pela qual os orixás são representados no filme?
SL: “Vejo como um grande avanço para a dramaturgia. Esta é a história que eu sempre quis mostrar sobre os nossos deuses. Que são nossos, dos negros, e de todos todos que os queiram também”.

BB: Como está sua carrreira pós-Besouro? Fale um pouco sobre seus projetos.
SL: “Eu sigo atuando em teatro com o Bando de Teatro Olodum, de Salvador, e temos um novo projeto chamado ‘Respeito aos mais velhos’, que deve estrear no próximo ano. Fora do teatro estou esperando um pouco, pois prometi que só ia fazer algo em cinema ou TV depois que os meus olhos tocassem em Besouro. E está perto…”

Jessica Barbosa: muito mais que uma bela heroína, uma grande atriz em formação

segunda-feira, 12|10|2009

Ok, ok, Besouro é o grande herói. Mas quem também promete ficar por muito tempo na lembrança dos espectadores que forem ao cinema a partir do dia 30 de outubro é a heroína da história, Dinorah, par romântico do protagonista. Não só pela força do personagem em si, mas pela beleza estonteante e pelo talento em ascensão da atriz que lhe dá vida: a baiana radicada no Rio de Janeiro Jessica Barbosa. Aos 23 anos de idade, Jessica faz seu primeiro papel no cinema. Mesmo assim, mostra uma dose de maturidade típica de quem sabe muito bem onde quer ir. E a julgar pelos voos que alça no filme, ela quer ir longe, muito longe. Além de emprestar garra e talento a Dinorah, Jessica promete encantar audiências vivendo também a bela Iansã, orixá dos ventos e das tempestades, numa caracterização que une magia, natureza e muita sensualidade (veja na foto abaixo). Confira um bate-papo que o blog teve este fim de semana com Jessica Barbosa, já no clima de expectativa para a grande estreia:

Blog do Besouro: Você já viu “Besouro” finalizado ou vai ver mesmo pela primeira vez na premiére?
Jessica Barbosa:
“Vou vê-lo pela primeira vez na premiére. Mas posso dizer que já fiquei emocionada só de ver o trailer…”

BB: Quais suas expectativas?
JB:
“Eu estaria ansiosa para ver o ‘Besouro’ mesmo se eu não tivesse participado. Recentemente, estive com Carlinhos Brown na Bahia e ele só falava do Besouro. Dessa nova estética que o João Daniel está trazendo. Da importância desse filme não só para o cinema nacional, mas para o povo brasileiro. Um filme que promete contar uma história de um herói negro. Com cenas de ação jamais vistas em filmes brasileiros. Com trilha sonora do Instituto, Gilberto Gil e Naná Vasconcelos. Com o trabalho da Fátima Toledo. Com um diretor com mais de 40 prêmios em Cannes. Com a capoeira. E ainda por cima, rodado na Bahia, com a benção dos Orixás… Não tem como não dar certo!”

BB: O que você sentiu quando viu que Besouro poderia ter sido indicado para concorrer ao Oscar?
JB: “Acompanhei as votações online. ‘Besouro’, mesmo sem ser visto ainda, estava em primeiro lugar no jornal O Globo. Incrível! O público já percebeu que esse Besouro é grande. Isso é o que mais importa para mim, que o público assista! Esse é o maior prêmio que podemos levar: as salas de cinemas cheias.”

Jessica, caracterizada como Iansã: beleza que não ofusca o talento da atriz

BB: Passado quase um ano do fim das filmagens, quais as melhores lembranças dos 70 dias de trabalho na Chapada Diamantina?
JB:
“Os intensos momentos de preparação. A natureza me pegando no colo quando a exaustão tomava conta. E o acolhimento dos amigos que fui fazendo…”

BB: Você tem mantido contato com os outros atores do filme?
JB: “São todos muito chegados! Quando Sérgio Laurentino e Leno Sacramento estão no Rio com o Bando de Teatro Olodum, vou vê-los. Assim como fui ver o Flávio Rocha em “O Banquete”, de Platão, dirigido por Zé Celso Martinez Corrêa. E tenho acompanhado pelos jornais a bela carreira que o Irandhir Santos vem fazendo”

BB: De que forma você acha que Besouro poderá mudar (ou quem sabe até já está mudando) sua carreira?
JB: “Em vez de investir toda a minha expectativa no futuro, estou me preparando para acolhê-lo bem!”

BB: Depois de Besouro, já pintaram convites para outros trabalhos no cinema? TV? Capas de revista?
JB: “Serei capa de uma revista este mês! E quanto aos convites… eles têm aparecido sim! Tenho tentado ser muito cautelosa com as minhas escolhas. Na profissão de ator é preciso enxergar a longo prazo, pensar em que tipo de carreira que se quer construir. Eu escolhi estrear no cinema. É difícil, mas tento ter menos pressa. Nesse momento sinto que a melhor opção é a de me dedicar exaustivamente aos estudos.”

BB: Tem lutado capoeira? Onde?
JB: “
Faço capoeira três vezes na semana na academia Flôr da Gente, no Catete, com o Mestre Mano. É capoeira de Angola, vinda de mestre Pastinha… O mano fala que o jogo de capoeira é como uma boa conversa. Você aprende as palavras depois vai brincando de pergunta e resposta. Ou seja, além de ter um bom vocabulário e muito ginga, o capoeirista precisa saber escutar!”

BB: Para encerrar, um pequeno bate-pronto:
. Um ator:
“Irandhir Santos”
. Uma atriz:
“Giulietta Masina”
Um diretor: “No momento, Tarkovsky”
. Um cantor:
“Pedro Moraes”
. Uma cantora: “As cantoras de jazz são incríveis, né? Até fico desestimulada nas aulas de canto (risos)! Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Sarah Vaughan… o canto delas é visceral e espiritual”
. Um livro:
“Ainda bem que a caixinha da criatividade não foi dada a uma pessoa só… Mas no momento estou desvendando a caixa do João Ulbado Ribeiro com ‘Viva o povo brasileiro’”
. Uma cidade:
“Rapaz, Deus também distribuiu a beleza… Mas se é para eleger uma: o Rio de Janeiro!”
. Uma viagem:
“A mais sonhada: conhecer Nova York!”
. Uma praia:
“Barra Grande, na Baía de Camamu, Bahia”
. Teatro, TV ou cinema?
“Quando não estou no cinema, estou no teatro. Sinto que hoje em dia no atual panorama do teatro carioca os atores não correm muito risco. Claro, temos grupos fazendo coisas incríveis! Como a Cia dos Atores! Mesmo assim, são listas enormes de peças que seguem uma fórmula de se ganhar dinheiro e uma lista pequena de teatro experimental. Vi Bob Wilson outro dia e fiquei extasiada. Isabelle Hupert, uma atriz que não deve nada a ninguém, ralando, suando e se arriscando. Isso é muito bonito”
. PT ou PSDB?
“Eu não estou presa a estrutura partidária. Hoje em dia a linha dos partidos políticos já não é mais tão clara. Eu tento avaliar e acompanhar o que vem acontecendo no cenário político para a partir disso ir fazendo as minhas escolhas”
. PC ou Mac? “Tanto faz, só uso para mandar email…”
. Orkut ou Facebook?
“Os dois: adoro trocar informações…”
, Um programa imperdível:
“Pôr do sol no Solar do Unhão, depois de um banho de mar no Porto da Barra”
, A Rio 2016 pra você:
“Uma calibrada de auto-estima no brasileiro. E espero que todos os investimentos que forem ser feitos pro Rio 2016 sejam pensados para além do Rio 2016″
, Quem você levaria para uma ilha deserta?
“Não penso em ir para uma ilha deserta…”
, Uma frase:
There is no standing still. Only evolution or involution” - Grotowski
, Besouro, afinal, foi…
“O início de um belo voo!”

Besouro é capa de revista sobre indústria do cinema

sexta-feira, 9|10|2009

A recém-lançada revista Preview, dedicada a cobrir os grandes lançamentos do cinema no Brasil e no mundo, trouxe para a capa de sua terceira edição, que chega às bancas semana que vem, uma grande reportagem sobre Besouro. A matéria, de cinco páginas, conta a história da produção do filme desde o dia em que o livro ‘Feijoada no Paraíso’ caiu no colo do diretor João Daniel Tikhomiroff até os últimos detalhes da finalização.

Entre eles, uma alteração de última hora feita pelo diretor, já para o 11º e último corte do filme: a pedido do público que participou das exibições-teste de ‘Besouro’, em agosto, ele introduziu a voz do ator Milton Gonçalves para uma locução que apresenta o Brasil e a Bahia na época em que Besouro viveu. Se você lembrou da abertura de “Guerra nas Estrelas”, é por aí mesmo. “É uma coisa pequena, mas importante para o espectador entender a trama”, disse João ao jornalista Ricardo Matsumoto, que assina a reportagem da revista Preview.

Confira abaixo a capa, que usa a foto, feita por este blog, de um dos cartazes do filme. A revista ainda não tem site, mas já tem Twitter: http://twitter.com/revistapreview.

Nas trilhas de Besouro: O Grande Mestre Camisa

terça-feira, 6|10|2009

Para dar continuidade a série de entrevistas e perfis de alguns dos grandes mestres da capoeira brasileira que reverenciam Besouro, o blog do herói traz para vocês, no vídeo abaixo, aquele que é considerado por muitos capoeiristas um dos maiores expoentes vivos do esporte.

José Tadeu Carneiro Cardoso, mais conhecido como Mestre Camisa, nasceu em Jacobina, na Bahia, e aprendeu a arte da Capoeira nos anos 60 com seu irmão mais velho, Camisa Roxa. Em 1972 foi morar no Rio de Janeiro, onde começou a dar aulas em academias e a pesquisar a capoeira para desenvolver o seu próprio estilo e método de ensino.

Camisa fundou a ABADÁ-CAPOEIRA, um grupo que hoje já possui uma expressiva representatividade em diversos países do mundo, tais como Estados Unidos, México, Canadá, Alemanha, França, Dinamarca, Inglaterra e Israel.

Mestre Camisa é considerado um dos mestres capoeiristas mais técnicos e disciplinados da capoeira. Atualmente, cerca de 30 mil discípulos seguem sua filosofia, doutrina, normas e fundamentos.

Ele é uma lenda viva e inspira gerações de capoeiristas no Brasil e no mundo, assim como o herói Besouro, de quem Camisa fala com reverência, carinho e respeito.

Assista ao vídeo:

“Um mito nacional, um herói brasileiro. Besouro é tudo isso e mais alguma coisa” - Mestre Camisa

Nas trilhas de Besouro: Mestre Tonho Matéria

quinta-feira, 10|09|2009

A partir de hoje, o Blog do Besouro começa a publicar entrevistas e perfis com alguns dos grandes mestres da capoeira brasileira que de alguma forma foram discípulos ou seguidores dos ensinamentos do grande Besouro Mangangá, herói do filme “Besouro - Nasce um heroi”. Vamos começar com o baiano Antônio Carlos Gomes Conceição, o Tonho Matéria, que além de mestre de capoeira é cantor, compositor e produtor cultural.

Pioneiro no uso da capoeira como instrumento de divulgação da cultura afro-brasileira, Mestre Tonho tem 45 anos e joga capeoeira desde os 12. Como músico e cantor, já passou por grupos famosos como o Ara Ketu e o Olodum. Seu trabalho mais importante, porém, é justamente aquele que mais o aproxima da memória de Besouro: Tonho Matéria é responsável, em Salvador, pela Associação Cultural de Capoeira Mangangá, responsável pela formação de mais de 400 crianças e adolescentes e pela propagação dos ideais libertários de Manoel Henrique Pereira, o Besouro.

Reprodução

Blog do Besouro: Quando você começou a ensinar capoeira?
Tonho Matéria:
Comecei a ensinar capoeira em 1983. Meu primeiro espaço foi na Sede do Seu Ladú e depois na Escola Parque, onde também treinava com meu mestre.

BB: O que te fez optar por esse caminho?
TM:
Era o que se tinha de mais próximo na comunidade onde cresci. Nasci no bairro Pau Miúdo, em Salvador, e o lugar era muito carente, não tinha opção de atividades esportivas ou artísticas, a não ser boxe e capoeira. Treinei boxe durante dois anos, mas eu me interessei mesmo pela capoeira. Em 1985 fui campeão baiano. Graças à capoeira, hoje conheço quatro continentes do mundo.

BB: Conte-nos sobre o movimento Mangangá. Qual o seu estilo?
TM:
No Mangangá não temos um estilo definido, nós jogamos capoeira e obedecemos ao que o berimbau manda. Não nos prendemos ao estilo Angola, nem regional e tampouco ao contemporâneo. Simplesmente jogamos capoeira.

BB: E quais as principais características e objetivos da Capoeira Mangangá?
TM:
As caracteristicas são o treinamento forte, o jogo cadenciado e equilibrado, o respeito entre os companheiros e a valorização da integridade dos seus associados, especialmente as crianças. Os objetivos são, principalmente, manter vivo o nome de Manoel Henrique Pereira, o nosso Besouro Mangangá, e a tradição da capoeira enquanto cultura, arte, luta e filosofia de vida.

BB: Como, atualmente, você acha que está a disseminação da capoeira no Brasil?
A capoeira é a cultura que anda. É uma arte que cresceu muito no Brasil, mas que infelizmente ainda está um pouco desorganizada. Alguns mestres falam que organização acabaria com o brilho ancestral dessa arte. Eu discordo. Os negros, mesmo ainda na África, viviam em sociedade. Tribos se uniam para preservar suas culturas e manter vivos os seus antepassados. Mas aqui no Brasil, vejo que muitos capoeiristas cultuam a capoeira de uma forma muito particular, tratando-a como um patrimônio pessoal. Com isso, pouco se faz no Brasil pela capoeira como um todo.

BB: Você acha que, ainda hoje, a figura do Besouro Mangangá é idolatrada por capoeiristas do Brasil inteiro?
TM:
Sim, Besouro foi sempre lembrado como um homem corajoso, que não temia nada. Alguns o viam como uma lenda, mas Besouro de fato existiu. Foi e ainda é um dos maiores símbolos de resistência para o povo, principalmente para os capoeiristas. No meu projeto, coloquei o nome de Mangangá pela energia e sagacidade que seus atos provocam em mim. Sinto-me parte disso tudo, um remanescente de seus quilombos de luta. Assim vou usando a força de Manoel Henrique Pereira para continuar com a luta da resistência negra, que é a minha forma de jogar capoeira.

BB: Quais são suas expectativas com relação ao filme “Besouro”?
TM:
Nossa! Toda a expectativa possível! Acredito que o filme vai ajudar a manter viva a imagem e historicidade de Besouro de Mangangá. Estou feliz pelo meu aluno Elder, que representou Besouro ainda criança. O filme vai ser o maior sucesso, e as boas expectativas não são só minhas, e nem dos meus alunos, mas de todos os capoeiristas do mundo inteiro.

Fátima Toledo, preparadora de elenco: “A dor desbloqueia”

quinta-feira, 30|07|2009

Fátima Toledo é uma alagoana que parece brava. Mas não é. Quem a conhece sabe que é um doce de pessoa. No auge de seus 55 anos, pouco mais de 1,50 metro de altura, cabelos curtos e ruivos, ela é uma das mais talentosas preparadoras de elenco do Brasil. Sua história com o cinema nacional começou nos anos 80, quando dava aula de teatro na Febem, e foi contratada por Hector Babenco para lidar com os meninos que atuariam em Pixote.

De lá pra cá não parou mais. Fátima chegou a Besouro a convite do diretor, João Daniel Tikhomiroff, que gosta do resultado que seus trabalhos levam para a tela. Segundo os dois, a empatia foi imediata e em dez minutos sabiam que começaria ali uma parceria bem-sucedida. Numa conversa em São Paulo, já durante a pós-produção de besoeuro, Fátima contou ao blog como foi a experiência de trabalhar com o elenco de Besouro, em especial com os capoeiristas, liderado pelo protagonista Aílton Carmo:

Blog do Besuro: Como você chegou ao filme do João Daniel Tikhomiroff?

Fátima Toledo: Conheci o João Daniel na fase em que Besouro era apenas um projeto de um filme, mais precisamente, um projeto de longa, já com roteiro. Após uma rápida leitura, fiquei encantada com a trama mas não sabia como poderia ser útil ao filme. Fizemos então uma reunião e foram necessários apenas dez minutos para que entendêssemos o que queríamos um do outro. Foi sintonia à primeira vista e entendimento imediato.

BB: Qual foi o principal desafio de Besouro?

FT: Definitivamente, Besouro me colocou à prova. Depois de tantos projetos ligados à dura realidade, caiu no meu colo um filme que mistura realidade com ficção. Besouro me fez voltar a acreditar na fantasia. Eu tinha que acreditar na fantasia para fazer com que os atores acreditassem que podiam voar… Soma-se à fantasia, a aridez da realidade também presente no filme. O momento denso da preparação foi esbarrar com o preconceito racial presente tanto nos negros quanto nos brancos.

Tivemos que romper com esse realismo para começar o trabalho. Os atores precisavam enfrentar o preconceito para amar seus personagens. Se não houvesse o rompimento, seria impossível atingir nosso objetivo. E foram questões, aparentemente simples da raça que trabalhamos à exaustão, como o cheiro, os traços, a cor… Mergulhamos tão a fundo na busca desse preconceito, que as pessoas ficavam perplexas com o que encontravam. No auge da preparação das cenas, o ator Irandhir Santos, que interpreta o capataz Noca de Antonia, vomitava sem parar. Esse foi um dos exemplos chocantes que aconteceu com a equipe.

BB: Como se deu a escolha do elenco?

FT: Foi uma escolha conjunta, minha e do João Daniel. Para mostrar os personagens que o filme pedia, era preciso seguir alguns parâmetros. Um deles foi a beleza. O filme mostra um lado negro que não estamos acostumados a ver. Pessoas sensuais, heróis, que lutam pelo que desejam e alcançam aquilo que buscam…

BB: Como foi preparar os atores para um longa cheio de peculiaridades, já que envolve elementos de ação, drama e preconceito racial, só para citar alguns?

FT: Besouro me ensinou um novo caminho. Saímos da realidade nua e crua por meio da fantasia. O primeiro passo foi encarar a realidade, no caso, o preconceito, e depois, usar a fantasia para entender os personagens. Um exemplo muito forte aconteceu com o Ailton Carmo, que faz o protagonista Besouro. Ele demorou a se encontrar. Até que em um dos exercícios ele, do nada, exclamou para o grupo:

- Parem de brincar!

Eu imediatamente captei que ali estava o caminho. Descobrimos que o Ailton, em sua infância, não podia brincar, porque precisava trabalhar para ajudar no sustento da família. Respondi a ele que ali, naquele momento, era também hora para brincadeira. Dei a liberdade que ele precisava e Ailton se encontrou, voltou ao tempo de tal forma que dizia, em transe, que já tinha vendido os doces e que poderia brincar… E brincou. Foi um dos instantes mais fortes do trabalho. Depois desse dia, ele decolou.

BB: Onde começa e termina o seu trabalho?

FT: Tenho o desafio de deixar os atores prontos para entrar nas cenas na hora em que o filme começa a ser rodado, sem a minha presença. O trabalho geralmente começa seis semanas antes do início das filmagens… Começo com muitos exercícios até passar cada uma das cenas. Deixo uma série de exercícios e aquecimentos para que eles façam antes das gravações.

Nos ensaios, não entregamos os diálogos e sim as intenções de fala. O mais impressionante é que os atores estão tão dentro do filme que falam exatamente o que o roteiro diz… Fica a critério do diretor, à época da filmagem, entregar as falas. Pela primeira vez, tive a oportunidade de realizar um sonho, já que o João Daniel não entregou diálogos, somente as intenções. O resultado conferimos na tela. Os atores falam o que está escrito, mesmo sem saber!

Feito todo esse preparo, eu deixo o set – geralmente dois dias antes do início das filmagens. Sei que eles ficam bem. Quem não fica sou eu que, de longe, morro de curiosidade para saber como vão as coisas.

Gilberto Gil fala sobre Besouro: ‘É um mito ancestral e moderno ao mesmo tempo’

domingo, 12|07|2009

Gil, em seu estúdio: "Besouro tem tudo para ser um super-herói brasileiro, um marco no cinema nacional"

Durante as gravações da música tema de Besouro, em junho, o Blog do Besouro bateu um papo com o cantor e compositor Gilberto Gil, autor e intérprete da canção que encerra o filme. Gil falou sobre o processo de criação da música, encomendada especialmente a ele pelo diretor João Daniel Tikhomiroff, e da importância que ele vê na figura histórica e no mito de Besouro. Confira aqui um pouco da conversa:

Blog do Besouro: Foi fácil fazer a música tema de Besouro?
Gilberto Gil:
Não, não foi fácil. A composiçào me deu trabalho. Não tanto quanto o João teve para fazer o filme, claro, mas deu trabalho… Pois é um tema exigente. Um tema que pede comprometimento. Trata-se de falar de um herói brasileiro, negro, ligado à  capoeira e ao candomblé, que são aspectos da nossa cultura só recentemente legitimados na sociedade brasileira. Por isso, tive muito cuidado pra fazer a música. Tentei compor de várias maneiras. Fiz tentativas mais tensas, outras mais poéticas, até chegar a esse espírito de samba de roda, que evita fazer uma descrição mítica do herói e envereda mais para o espírito lúdico de uma roda de capoeira. Essa foi a minha aposta. Felizmente, o João Daniel gostou.

BB: Qual a sua relação, como negro e baiano, com o mito do Besouro?
GG:
Olha, em muitos momentos da minha vida na Bahia, especialmente na adolescência, eu tive muito contato com pessoas que tinham a memória do Besouro, principalmente no círculo da capoeira e do samba de roda. Mas os que mais me marcaram foram os relatos de dona Canô, mãe de Caetano Veloso, que foi contemporânea de Besouro, e gostava muito de contar suas histórias (Nota do Blog: Consta que Dona Canô testemunhou os últimos momentos da vida de Besouro: ela conta ter visto o herói sendo levado para um hospital, ensanguentado, no dia em que foi assassinado).

BB: Qual a importância do mito do Besouro num país como o nosso, tão carente de mitos e heróis?
GG:
A mitologia é uma das fontes básicas de energia espiritual para um povo. Os mitos fazem parte do processo da educação. No caso do Besouro, é um mito relativamente recente, de menos de 100 anos, mas que tem um contexto ligado à ancestralidade da cultura africana. E isso tem uma importância muito grande para a cultura negra, para a sua consolidação e relevância dentro da cultura brasileira. E eu vejo o mito do Besouro muito importante também para a nossa juventude. Iso porque ele é um mito heróico, que é um conceito hoje muito entranhado na cultura jovem. Isso faz dele ancestral e moderno ao mesmo tempo, o que é muito interessante.

BB: Dá para dizer que o Besouro é um autêntico super-herói brasileiro?
GG:
Acho que uma das coisas que me cativaram nesse projeto é exatamente isso. A narrativa do filme desloca as histórias do mito do Besouro para um contexto mais contemporâneo, atualizado com as linguagens usadas hoje no cinema direcionado ao público jovem. Isso deve fazer de Besouro um filme mais interessante do que já seria apenas pelo simples fato de mostrar a dimensão de um herói histórico. Os recursos visuais, as lutas, os voos, os efeitos especiais, eu espero que tudo isso contribua para transformar Besouro num verdadeiro marco no cinema brasileiro.

***

Veja abaixo um flagrante de Gil ensaiando alguns acordes da música “Besouro”, momentos antes de entrar no estúdio para gravar:

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Uma aula de edição

domingo, 29|03|2009

Algumas semanas atrás, este blog bateu um longo papo com Gustavo Giani, o editor de Besouro. Além de explicar a quantas andava o processo de montagem do filme, que agora já está quase concluído em seu primeiro corte (leia mais sobre isso em breve), Gustavo acabou dando pra gente uma fantástica aula sobre o processo técnico e criativo de edição de imagens para um longa-metragem. O vídeo abaixo é um pouco grande, mas vale a pena assistir. Principalmente se você, mais que fã, também é um apaixonado pelas técnicas da sétima-arte:

Cinema para mim é…

sexta-feira, 27|03|2009

“…Uma sucessão de telas que precisam ser pintadas”, segundo o maquiador de Besouro, o artista plástico Martin Macias Trujillo:

Cinema para mim é…

sexta-feira, 13|03|2009

… “Vivência”, segundo o ator Servílio de Holanda, que vive o jagunço Genival em Besouro:

Making of: Uma entrevista com o autor do livro que inspirou Besouro

quarta-feira, 4|03|2009

O sol estava a pino no verão carioca quando a diretora Katia Lund, que roda o making of de Besouro, sentou-se à sombra de uma árvore no jardim do Observatório Astronômico do Valongo, no centro da capital fluminense, para conversar com o escritor, cartunista e publicitário Marco Carvalho, 56 anos, autor do livro “Feijoada no Paraíso”, que inspirou o diretor João Daniel Tikhomiroff a escrever o roteiro de Besouro. O local da entrevista não poderia ser mais apropriado. O observatório, o mais antigo do Brasil, fica no alto do Morro da Conceição, a poucos metros da Pedra do Sal, local onde nasceu o samba e onde a cidade do Rio iniciou seu crescimento urbano. Um lugar carregado da história brasileira e da memória da cultura negra. Assim como o livro do carioquíssimo Marco Carvalho.

Por cerca de duas horas, Marco contou para Katia, para a câmera de Will Etchebehere e para o microfone de Paulo Munhoz um pouco do fascínio que a história de Besouro exerce sobre os negros e capoeiristas do Brasil e porque ele pode ser considerado um mito tão ou mais especial que outros “outsiders” da cultura nacional, como Zumbi dos Palmares, Lampião e Antônio Conselheiro. Antes da entrevista para o making of, Marco conversou com o blog também.

“Lampião, Zumbi e Conselheiro, para ficar só nestes três exemplos, foram homens que comandavam grandes grupos de revoltosos, homens e mulheres fora-da-lei, e que só se tornaram realmente famosos depois que as forças públicas se lançaram com violência contra eles. Ou seja: antes de virarem os mitos que são hoje, entraram para a História pelo noticiário policial, literalmente pela porta dos fundos”, teoriza Marcos. “Já Besouro era um homem que agia sozinho, e que não teve sobre si quase nenhum registro oficial. Mesmo assim, já era um mito local mesmo antes de morrer, aos 26 anos, e hoje é um personagem conhecido e cultuado no universo da capoeira e dos negros da Bahia graças exclusivamente à tradição oral. São as músicas sobre ele que o perpetuam, através das rodas de capoeira. E isso é um caso raro e poderoso de popularidade de uma personalidade histórica. Algo digno de admiração e estudo”, conclui o escritor.

O próprio Marco Carvalho, aliás, foi um dos brasileiros que descobriu Besouro graças à tradição oral da capoeira. “Conheci sua história quando me tornei um capoeirista também, nos anos 80, aqui no Rio de Janeiro. Já naquela época, fiquei impressionado com a abundância de músicas sobre ele e seus façanhas. Percebi o quanto ele era um mito vivo, mesmo com muito pouca documentação histórica ou literária a seu respeito”, conta.

Começou então a surgir, mais de vinte anos atrás, a ideia de escrever sobre o mito. Pouco a pouco, Marco foi reunindo informações sobre Besouro e seus feitos. Mas apenas em 2002 começou a esboçar o livro. `Feijoada no Paraíso` ficou pronto em 2004, e dois anos depois Marco estava ajudando João Daniel Tikhomiroff a escrever o primeiro esboço do roteiro para cinema. A versão final, porém, não tem a sua participação, e possui alguns personagens e passagens criados por João Daniel exclusivamente para a tela grande. Nada disso incomoda o escritor. “O filme preserva inteiramente a força do mito, ao mesmo tempo em que torna mais atraente, sob o ponto de vista dramático, o universo que o cercava. Isso é muito bom”, elogia.

A íntegra da entrevista de Katia Lund com Marco Carvalho você verá no making of de Besouro, que será lançado junto com o DVD do filme, após a exibição nos cinemas. É só aguardar.

O diretor, a dança e a luta

sexta-feira, 13|02|2009

Veja abaixo o diretor de Besouro, João Daniel Tikhomiroff, revelando as origens do seu fascínio pela capoeira e pelos capoeiristas, e como isso o influenciou na escolha do tema para o seu primeiro longa-metragem:

Off-topic: Blog sobre publicidade entrevista João Daniel

quinta-feira, 29|01|2009

O novo blog Cinema Curto, dos jornalistas Rodrigo Fonseca e Paulo Peres, especializado em filmes de publicidade, estreou esta semana na web colocando no ar uma boa entrevista com o diretor João Daniel Tikhomiroff. A conversa não foi exatamente sobre Besouro (girou mais em torno da carreira de João, cineasta que dirigiu filmes publicitários, afinal este é o tema do blog). Mas o filme também estava lá. Inclusive com uma foto das filmagens. Por isso, vale o registro aqui no Blog do Besouro. Para ler a entrevista, clique no link abaixo:

Cinema Curto - Entrevista: O homem dos mil filmes

Feijoada no Paraíso: A origem de Besouro

sábado, 3|01|2009

Feijoada no Paraíso é o título do livro do escritor carioca Marco Carvalho, que conta lendas e histórias a respeito do Besouro Mangangá, o maior capoeirista de todos os tempos. Quatro anos atrás, este livro caiu, quase que por acaso, de uma prateleira de livraria para as mãos de João Daniel Tikhomiroff. Surgiu aí a idéia de filmar a história de Besouro. É sobre todo esse processo de inspiração e muito trabalho que João Daniel fala na entrevista abaixo:

E tem mais Besouro na mídia por aí…

quinta-feira, 4|12|2008

Desta vez foi na coluna Em Cena, do Estadão. Uma entrevista com João Daniel sobre a experiência no set de Besouro. Confira:

Entrevista com João Daniel Tikhomiroff no Estadão


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João Daniel: Uma conversa sobre roteiro, cavalos, edição e mergulho

sábado, 8|11|2008

LENÇÓIS (BA) - Ao fim da segunda semana de filmagens nesta cidade, o diretor João Daniel Tikhomiroff bateu mais um papo com o blog. Além de avaliar o complexo trabalho nas atuais locações - que tem planos de batalhas com cavalos, saltos espetaculares de cachoeiras e tomadas subaquáticas -, ele conta um pouco sobre o longo e permanentemente burilado processo de criação que trouxe Besouro até Lencóis, o levará até o Recôncavo Baiano na semana que vem e, em 2009, para as telas do mundo inteiro:

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João Daniel: a emoção de rodar a última cena de Besouro

segunda-feira, 27|10|2008

Na última noite de trabalho em Igatu, pouco antes de embarcar para a segunda fase de filmagens, que já acontecem em Lençóis, o diretor João Daniel Tikhomiroff conversou com o blog. Ele falou sobre a emoção de ter rodado aquela que será a última cena do filme, e também sobre a experiência de trabalhar com as equipes do diretor de fotografia, Enrique Chediak; do diretor de arte, Claudio Amaral Peixoto; e do coordenador de cenas de ação, Dee Dee. Confira:

15 dias de filmagem: Entrevista com João Daniel Tikhomiroff

quarta-feira, 15|10|2008

IGATU (BA) - Assista abaixo a um bate-papo com o diretor de Besouro sobre a evolução do elenco nas filmagens, a relação da equipe com as locações, as dificuldades do set e os próximos desafios da produção, que embarca para Lencóis, também na Chapada Diamantina, no começo da semana que vem.

Cinema pra mim é…

segunda-feira, 13|10|2008

Dar um pouco do seu ar para um personagem poder viver, na visão do ator e capoeirista Anderson Grillo, o Quero-Quero de Besouro

Cinema pra mim é…

sexta-feira, 10|10|2008

… “eu e meu caminhão”, no ponto de vista de Bia Salgado, a figurinista de Besouro:

Nílton Júnior: ‘Sou a cara do Cobra Criada’

quinta-feira, 9|10|2008
Nilton Júnior num intervalo das filmagens, ao lado de três meninas figurantes: tranquilão

Nilton Júnior durante as filmagens, brincando com figurantes: felicidade total

IGATU (BA) - “Besouro, para um capoerista, é como Jesus Cristo para os cristãos”. É com essa definição forte que o ator Nilton Júnior, o Cobra-Criada de Besouro, resume a importância que sente ao participar das filmagens do longa-metragem baseado nas lendas de um dos maiores mitos de todos os tempos da capoeira. A comparação procede: no imaginário popular, Besouro representou um marco na resistência à opressão aos negros do começo do século 20, recém-libertos da escravidão porém ainda amarrados a um sistema econômico e social que os tratava com sub-cidadãos.

“Besouro Mangangá, Mestre Pastinha e Mestre Bimba, entre outros, são absolutamente inspiradores pra gente”, ressalta o ator, que reconhece ainda estar nas nuvens pela oportunidade de atuar em Besouro. Técnico de informática em Salvador, filho de capoeirista e ele próprio professor de capoeira, Nilton foi levado pelo pai para fazer os testes para o filme, sem ter muita idéia do que estava fazendo. “Fiz o teste nervoso. Não jogava havia um tempo, estava gordo e até um pouco barrigudo… Mas não é que passei?”, lembra, divertido.

Alguns testes e entrevistas depois, Nilton desembarcou em Andaraí no dia 10 de agosto, já como parte integrante do elenco. Mas sua trajetória até o início das filmagens, semana passada, não foi exatamente em céu de brigadeiro. A princípio chamado para ser o Quero-Quero (o melhor amigo de Besouro, que tem uma participacão fundamental na trama) acabou tendo o seu papel trocado no meio das oficinas de preparação. Quero-Quero ficou para Anderson Grillo e Nilton ganhou o papel de Cobra Criada. Decepção? Franco, ele reconhece que sim. Mas nada que não tenha sido facilmente superado.

“Tenho 26 anos, não sou mais menino. O Anderson tem mais o ímpeto, a competição que o personagem do Quero-Quero exige. Notei isso desde o início. Além disso, a Fátima conseguiu me convencer de que eu sou a cara do Cobra Criada”, diz Nilton, referindo-se à preparadora de atores Fátima Toledo. “Por isso, continuei muito, muito feliz de estar fazendo esse trabalho”, conclui.

Sobre o futuro como ator, Nilton usa uma bonita metáfora para explicar suas incertezas. “Ser um ator de verdade é como estar num rio. Mesmo não querendo, a correnteza leva a gente. Por isso, vamos ver o que acontece”, diz. Mas por enquanto, ele insiste, seu objetivo é um só: ser, de corpo e alma, um capoeirista chamado Cobra Criada.