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Igatu, antes e depois de Besouro

sexta-feira, 10|10|2008

IGATU (BA) - Como este blog já mostrou, as intervenções cenográficas na arquitetura de Igatu foram imensas, tudo para deixar o pequeno vilarejo perdido no tempo ainda mais parecido com uma cidade do Recôncavo Baiano dos anos 20. Além da pintura nas fachadas e da construção de cenários interiores em várias casas, um telefone público e 11 postes de energia elétrica das principais ruas do lugar foram retirados, e as casas afetadas estão recebendo luz e telefone por um cabeamento provisório. As fotos abaixo deixam clara essa transformação. A primeira, feita pelo diretor de produção de Besouro, Luiz Henrique Fonseca, durante os trabalhos de preparação da locação, mostra como era a principal rua de Igatu até julho de 2008. A segunda foi feita ontem.

Antes…

Depois:

Após as filmagens, o orelhão e sete dos 11 postes retirados serão recolocados no lugar. E,  desta vez, já respeitando as normas do Iphan para a preservação de patrimônios históricos.

Igatu: o filme e o Patrimônio Histórico

terça-feira, 30|09|2008

IGATU (BA) - A escolha deste pequeno vilarejo, distrito de Andaraí, para ser a principal locação urbana de Besouro obedeceu um sem-número de critérios. Depois do artístico - do desejo do diretor João Daniel em encontrar uma cidade absolutamente preservada, que ajudasse a imprimir o tom onírico necessário para o filme - foi preciso uma boa dose de conversa da produção com o Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para que o uso da locação fosse aprovada.

Isso porque todo o conjunto arquitetônico, paisagístico e histórico de Igatu é, desde 1997, tombado pelo Iphan. Incluindo as ruínas ao redor do vilarejo, que remontam os tempos áureos da exploração de diamantes, no século 18, quando a vila chegou a ter mais de 5 mil habitantes. Portanto, qualquer intervenção na arquitetura da cidade, mesmo que provisória, precisa de autorização do Iphan.

O processo para isso foi longo, mas não foi difícil. De imediato, o Iphan enxergou na iniciativa do filme uma boa oportunidade para acertar irregularidades urbanas antigas do vilarejo. A necessidade da retirada de postes e orelhões para as filmagens (a ação se passa nos anos 20) foi o melhor exemplo. Pelo acordo, a produção de Besouro vai recolocar todo esse mobiliário urbano já dentro das especifições desejadas pelo orgão. Uma melhoria que, em condições normais, dificilmente aconteceria.

A pintura da fachada das casas obedece o mesmo critério. Todas as que foram pintadas para o filme serão devolvidas com as cores que tinham originalmente (a não ser que o morador deseje manter as tintas usadas no filme). Porém, irregularidades muito comuns cometidas em cidades tombadas - como o uso de tintas fora do padrão determinado pelo Iphan, ou a colocação de intervenções irregulares nas fachadas - será corrigido pela produção. “É uma forma de aproveitarmos a oportunidade para melhorar a relação da cidade com as exigências do instituto. Já que vão mexer no conjunto arquitetônico, que devolvam ele já dentro dos padrões necessários”, explica Mateus Morbeck, chefe do escritório técnico do instituto para a região da Chapada Diamantina.

O desafio cenográfico

segunda-feira, 29|09|2008

IGATU (BA) - Quando os jovens atores de Besouro entrarem em cena, amanhã, verão que o vilarejo de Igatu, encravado no meio da Chapada Diamantina, a centenas de quilômetros do litoral e cercado de pedra por todos os lados, virou uma cidade de pescadores do Recôncavo Baiano. Licença poética? Efeitos especiais? Não, pura direção de arte e cenografia, a cargo da equipe de Claudio Amaral Peixoto.

Em quase dois meses de trabalho de pré-produção em Igatu, a turma da cenografia gastou centenas de litros de tinta (na foto abaixo, a assistente de arte Lee Lorgus pinta uma fachada, já nos preparativos finais da pré-produção) muita madeira e uma boa dose de colaboração dos moradores para maquiar completamente ruas e casas da vila. “Procuramos padronizar tudo com poucas cores, justamente para dar o tom meio fantasmagórico ao ambiente, como pede o roteiro”, conta Claudio Amaral Peixoto.

Uma feira de negros, típica dos anos 20 baianos, foi montada numa rua lateral. Ali acontecerão as cenas mais importantes dos primeiros dias de filmagem. Ao fundo da rua principal, um armazém com velas de jangada enroladas na porta dá os ares marítimos para a cidade. O cenário não mostra, mas na imaginação do diretor de arte, bem atrás do amazém está a foz do Rio Paraguassú, palco principal do comércio pesqueiro do Recôncavo Baiano no começo do século XX.Curiosamente, o mesmo Rio Paraguassu que, de fato, passa bem perto de Igatu, em forma de saltos e corredeiras, no princípio de seu curso em direção ao mar.

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A cenografia de Besouro transformou Igatu, mas não recriou uma cidade nova. Não era necessário. Ao contrário de muitas produções do gênero, o filme não se passa na praça ou na rua principal. No Recôncavo dos anos 20, a igreja matriz não era frequentada pelos negros. A ação de Besouro acontece nas vielas, nos locais onde os negros se reuniam em rodas de capoeira, nos armazéns, nas biroscas e nas casas dos personagens. Uma das poucas grandes “construções” cenográficas em Igatu, portanto, é o muro abaixo, feito justamente para  para esconder a praça da vila, transformando o que de fato é a rua principal do lugar numa viela secundária da cidade fictícia.

Foto de Paulo Mussoi