Cinema para mim é…
sexta-feira, 27|03|2009“…Uma sucessão de telas que precisam ser pintadas”, segundo o maquiador de Besouro, o artista plástico Martin Macias Trujillo:
“…Uma sucessão de telas que precisam ser pintadas”, segundo o maquiador de Besouro, o artista plástico Martin Macias Trujillo:

À frente da câmera 1, a equipe se prepara para mais uma cena. Atrás dela, o fotógrafo Christian Cravo mostra que não perde um detalhe
A palavra still, para quem não está acostumado com o jargão do cinema, é o nome que se dá para as fotos oficiais de um filme. O still tem esse nome porque é a versão “parada” da mágica em movimento da sétima-arte. Em geral, estas fotos são usadas para a divulgação do trabalho: ora enviadas para jornais e revistas, ora usadas para compôr os cartazes e outras peças de promoção da obra ou mesmo para o portfólio de atores e atrizes. O melhor exemplo para o uso de still, porém, anda até meio fora de moda: são as fotos de algumas cenas do filme que costumam (ou costumavam…) ficar expostas do lado de fora das salas de cinema.
Pois todo esse material é responsabilidade do fotógrafo de still. E no caso de Besouro, o still é um luxo só: as fotos são do fotógrafo baiano Christian Cravo, sobre o qual já falamos aqui. Suas imagens, mais que simples divulgação, ilustrarão um livro de arte sobre a produção. Algumas delas você já viu com exclusividade neste blog. E agora vê mais algumas, gentilmente cedidas pelo Cris:
… Tudo! Na opinião de Mariana Reginaldo, assistente de figurino de Besouro.

O brilhante fotógrafo e pesquisador francês Pierre Verger era um viajante solitário. Até o dia em que conheceu a Bahia. No mesmo momento, apaixonou-se pela cultura afro-brasileira, estabeleceu-se por aqui e tornou-se um dos principais documentaristas dos costumes da nossa população negra, em meados do século 20.
Se estivesse vivo (faleceu em 1996) e tivesse a oportunidade de visitar o set de Besouro, certamente teria se fascinado com a reconstituição de época feita pela equipe do diretor de arte Claudio Amaral Peixoto em sua tarefa de recriar uma pequena cidade do Recôncavo Baiano dos anos 20.
E não é difícil imaginar o grande fotógrafo disparando sua Rolleiflex preto-e-branco em busca de retratos como este aí de cima, que mostra uma figurante durante as filmagens dos planos da feira dos pobres, na locação de Igatu. A imagem é do fotojornalista carioca André Coelho, feita quando ele fazia uma reportagem sobre a produção para o jornal O Globo.
“Na minha opinião, essa é a mais bela de todas as fotos que fiz no set. Pela figurante em si, pela luz, pela composição e pelo extraordinário trabalho da direção de arte… Enfim, acho que baixou um Verger em mim naquele momento”, conta André, sem esconder seu deslumbramento com a beleza da produção.
E este blog também não esconde o seu deslumbramento com a foto do André.
De todos os jovens protagonistas de Besouro, o ator Irandhir Santos talvez seja o mais experiente. Afinal, tem no currículo o papel principal em A Pedra do Reino, do diretor Luiz Fernando Carvalho, mini-série de alta qualidade que a Rede Globo exibiu em 2007, baseada na obra de Ariano Suassuna. Ainda assim, interpretar Noca de Antônia, o violento e taciturno chefe dos jagunços do coronel Venâncio, não tem sido tarefa fácil para este pernambucano de 30 anos que já está ficando famoso pela entrega com que se dedica a seus personagens.
“O Noca é um sujeito que traz nele sentimentos desumanos, nojentos. Para vivê-lo, eu tive que descobrir isso em mim também. Tive que lidar com a minha sombra, com aquilo que eu tenho de mais nojento, de mais mau dentro de mim. Foi difícil. Mas libertador”, conta o ator.
Para realizar essa transformação interna, Irandhir contou, claro, com a fundamental ajuda da preparadora de elenco Fátima Toledo. Foi ela quem ajudou o Irandhir de fala mansa, jeitão tranquilo e gentil a descobrir de onde tirar o ódio que faz Noca literalmente babar espuma em cena. E a chave para isso veio de uma constatação ancestral do ator: “Desde a infância, reprimo muito os palavrões. Foi destampando as palavras feias do meu subconsciente que pude buscar a alma do Noca dentro de mim”, diz Irandhir.

Nesta foto, Irandhir e Ailton Carmo não estão em cena - estão apenas aquecendo. Note que Noca baba de raiva. Em primeiro plano, Flávio Rocha, o coronel Venâncio, observa
De fato, basta alguns minutos de observação de Irandir no set para perceber esse processo. Seu aquecimernto para entrar em cena é um espetáculo à parte. “Miséria preta”, “safado” e “derrota” são apenas as publicáveis das palavras a que Irandhir recorre durante sua preparação, instantes antes de suas participações no filme. “Nunca falei tanto palavrão na minha vida como nas útlimas semanas”, reconhece o ator, entre surpreso e divertido. Uma entrega admirável, que dá a perfeita medida da dedicação do elenco de Besouro aos personagens desta fantástica história.
No vídeo abaixo, um flagrante de Irandhir destampando algumas de suas palavras feias para fazer emergir o ódio de Noca para uma cena de perseguição a Besouro nas ruas de Igatu:
Depois de quase um mês e meio de trabalho entre as pedras, as águas, as cavernas e as queimadas da Chapada Diamantina, a produção de Besouro deixou a região. Há dois dias, a equipe filma na cidade de Nazaré das Farinhas, no Recôncavo Baiano, e se prepara para, na semana que vem, mudar-se para Cachoeira - também no Recôncavo - última locação das filmagens.
Para marcar a despedida desse lugar mágico que foi a ‘casa’ de Besouro por tanto tempo, o blog separou algumas imagens da equipe no último dia de trabalho em Lençóis:
LENÇÓIS (BA) - Seu João Feio tem 62 anos. Olhando de longe, parece bem mais. A aparência frágil, porém, esconde uma fibra rara de mandacaru. Seu João é vaqueiro desde os 13 anos, e uma lenda viva da Chapada Diamantina e arredores. “Toco boi desde que me entendo por gente. Graças a eles, hoje sou um homem rico e feliz. Mas já houve tempo em que era pobre de passar mês inteiro em cima de cavalo para poder dar de comer em casa”, conta o homem franzino, de pele grossa e voz de veludo. A riqueza de seu João, entenda-se, está na casa e nas cabeças de gado que cria. Sair de cima de um cavalo, contudo, “só quando Deus chamar”.
E foi em cima de um que Seu João, junto com outos 15 boiadeiros da região, teve seu momento de estrela no set de Besouro. Eles interpretaram os jagunços do Coronel Venâncio. Durante três dias, em Lencóis, protagonizaram uma grande cena de perseguição a Besouro, que contou com efeitos especiais, planos grandiosos e, claro, a perícia de todos eles sobre suas montarias.
Seu João e os demais vaqueiros foram arregimentados em fazendas e vilarejos da região pelo terceiro assistente de direção Daniel Lentini. O roteiro exigia que todos soubessem montar muito bem, para acompanhar o ator Flávio Rocha (o Coronel Venâncio, na foto acima cara a cara com Besouro), ele próprio calaveiro desde os tempos de garoto em Pernambuco. Para isso, Daniel recrutou-os durante um jogo de “Argolinha”, uma curiosa vaquejada da região em que os boiadeiros precisam atingir, com lanças improvisadas, pequenas argolas posicionadas no alto de traves de futebol - tudo regado a muita cachaça. “Quando vi que aqueles homens, naquele estado alcóolico, tinham habilidade para jogar aquele jogo sem cair do cavalo, tive certeza de que eles serviriam com sobras para o filme”, conta Daniel.
Mas montar a cavalo é apenas a primeira das muitas habilidades desses vaqueiros, acostumados a buscar boi no mato, laçar novilho a unha e tocar boiadas de uma cidade a outra, por trilhas que só eles conhecem na Chapada.
E uma dessas habilidades é cantar.
Os aboios, canções improvisadas dos sons que os vaqueiros fazem para tocar a boiada, são belíssimas pérolas da sabedoria popular da região da Chapada. Seu João Feio, claro, é um repentista de mão cheia. Mas os mais jovens seguem seus passos, e uma reunião de vaqueiros para ouvir aboios é uma experiência para se guardar para sempre na memória.
Num intervalo das filmagens de Besouro, eles apresentaram alguns aboios para o blog. Veja no vídeo abaixo:
LENÇÓIS - Todo mundo tem aqueles dias em que as coisas não dão muito certo. Filme também, ora essa. A segunda-feira que abriu a terceira semana de filmagens de Besouro em Lençóis, por exemplo, foi o que a equipe chamou unanimemente de “dia difícil”. Tudo por causa de uma cena que não saiu conforme o planejado. Entre as dificuldades que a rondaram, além de uma sincronia complexa e trabalhosa entre os atores, houve um incidente que ilustra bem o quanto o prazer de fazer cinema muitas vezes vem acompanhado de dor - muita dor. E não estou falando de dublês pagos para cair, correr e se jogar. Dessa vez, sobrou para todo mundo: na tentativa de fazer um plano de ação com o máximo de realismo, o ator Flávio Rocha, que vive o Coronel Venâncio (o antagonista de Besouro) se chocou feio com um outro ator. Flávio fez um galo na cabeça, e ainda sobrou para o operador de câmera Rodrigo Monte, recém-chegado ao set, que estava substituindo o diretor de fotografia Enrique Chediak na operação de câmera justo naquela cena. Veja as imagens:
… uma aprendizagem dura, para o ator e diretor teatral Antônio Fábio, que faz em Besouro sua estréia em longas-metragens, interpretando o jagunço Serafim:
… Uma experiência extracorpórea, para o montador de Besouro, Gustavo Giani:
IGATU (BA) - “Foi em cima da hora”. “No susto”. “Nem sabia direito pro que era…” É curioso como as trajetórias dos jovens protagonistas de Besouro até o set foram de certa forma parecidas. Talvez pela pressa com que foram selecionados, talvez pela confidencialidade que envolveu o casting do filme, o fato é que vários deles têm histórias similares para contar sobre esse processo. Ailton Carmo, o Besouro, estava morando na Bélgica e passava pelo Brasil por acaso na época dos testes. Nilton Júnior, o Cobra Criada, soube no dia. Macalé dos Santos, o Mestre Aílípio, foi caçado por amigos em Salvador para se apresentar à produção do filme. E com Jessica Barbosa, a Dinorá, principal personagem feminino do filme, o destino também foi bastante generoso. A própria atriz de 22 anos, baiana radicada no Rio, conta o que aconteceu:
“Meu grande sonho sempre foi fazer um curso com a Fátima Toledo. Com a ajuda dos meus irmãos, consegui me inscrever para um, e fui para São Paulo só pra isso. E logo no primeiro dia de aula, assim que me viu, a Fátima me perguntou se eu jogava capoeira. Com eu disse que sim, fiz um vídeo com ela, assim, meio rapidinho. No dia seguinte, já estava embarcando pra Bahia fazer um teste para a Dinorá”.
O diretor João Daniel Tikhomiroff, que acompanhou os primeiros testes incógnito, reconhece que, depois que viu o vídeo com Jessica, sentiu que sua escolha para o papel não seria tão difícil quanto ele imaginava. “A beleza exótica dela chamou nossa atenção desde o início. E quando ela começou os testes, vimos também que, além de boa atriz, ela parecia ter sido moldada de corpo e alma para ser a Dinorá”, lembra João.
No set de Besouro, é difícil não notar a presença de Jessica. Não apenas pela beleza da mulata de olhos claros e cabelo exuberante - que ora estão soltos, ora estão trançados, dependendo da cena que ela está rodando -, mas também pela postura concentrada que adota tanto diante das câmeras quanto fora delas, nos intermináveis intervalos de espera entre um plano e outro. Como todo bom discípulo de Fátima Toledo, Jessica não “faz” a Dinorá. Jessica “é” a Dinorá. Mesmo que seja se protegendo do sol inclemente da Chapada debaixo de uma barraca da produção, tomando um reles copinho de água mineral, sendo presa a cabos de aço para “voar” em cena ou aquecendo o personagem.

O Bar Igatu, de Seu Guina: um dos points noturnos durante as semanas que a equipe de Besouro filmou ali
IGATU (BA) - O sábado, dia 18, marcou o último dia de filmagens de Besouro na locação de Igatu. A partir da segunda-feira, dia 20, e até meados de novembro, a cidade de Lençóis, também na Chapada, será a base de operações do filme. Mas o último dia de trabalho em Igatu não foi especial apenas por marcar a despedida da equipe deste simpático lugarejo de casas e ruínas de pedra. Foi também a primeira e única virada de filmagens noturnas de Besouro nesta locação.
A calmíssima Igatu - que em geral à noite só tem algum movimento no Bar Igatu, do folclórico Seu Guina (leia em breve uma matéria sobre ele) ou na Pizzaria das Pedras - desta vez ficou agitada a madrugada inteira, com holofotes, rebatedores, baterias e geradores espalhados por diversos pontos e cenários escolhidos para as noturnas. A noite foi marcada também pela filmagem de algumas cenas cruciais para a trama do filme (que este blog não vai contar, pode esquecer) e pela participação de dois ilustres figurantes. Confira abaixo algumas fotos dessa noitada de muito trabalho:

Olha o caminhão da Bia aí, gente: lotado de roupas, ele aguarda para transportar o figurino para uma nova locação

A coordenadora de arte, Marina Lage, a assistente de arte Isabela de Oliveira e a assistente de produção Lilian Navarro assistem à filmagem de uma cena

O diretor João Daniel e Dee Dee, o coordenador de cenas de ação, brincam durante um intervalo: o chinês é voador e muito boa praça
IGATU (BA) - As imagens abaixo poderiam ter sido feitas durante as fimagens de um plano qualquer de Besouro. Não foram. Mostram “apenas” o aquecimento dos atores do elenco - um exercício de entrega total aos personagens, desenvolvido segundo a técnica da preparadora Fátima Toledo. Normalmente, ele é feito discretamente, num local mais reservado, sem a presença do resto da equipe. Mas blog flagrou:
Imagens do set feitas pela turma que trabalha atrás das câmeras de Besouro:

Na foto do coordenador de efeitos visuais Robson Sartori, o contra-regra Farinha segura um peixe que vai 'voar' com a ajuda do chroma key

Na foto da gerente de comunicação da Mixer, Berenice Menezes, a diretora Kátia Lund, que faz o making of de Besouro e um documentário sobre as lendas em torno do protagonista, entrevista o diretor João Daniel

Outra foto de Berenice: a pequena figurante Crislaine se diverte sob uma das barracas da feira dos pobres

Na foto da assistente de arte Isabela de Oliveira, um detalhe importante da cenografia: uma oferenda a Exu na encruzilhada
IGATU (BA) - Assista abaixo a um bate-papo com o diretor de Besouro sobre a evolução do elenco nas filmagens, a relação da equipe com as locações, as dificuldades do set e os próximos desafios da produção, que embarca para Lencóis, também na Chapada Diamantina, no começo da semana que vem.
Dar um pouco do seu ar para um personagem poder viver, na visão do ator e capoeirista Anderson Grillo, o Quero-Quero de Besouro
IGATU (BA) - Bia Salgado, a figurinista de Besouro, gosta de dizer que cinema, para ela, é a imagem do seu caminhão cheio de roupas, chegando e saindo dos sets de filmagem da vida. Quando chegou a Igatu, vindo do Rio de Janeiro, o caminhão da Bia estava assim: lotado. Nele vieram mais de 500 montagens de roupas, que irão compôr cerca de 300 figurinos diferentes - e outros tantos repetidos - para atores e figurantes. Só de chapéus são mais de 100. Tudo organizadamente espalhado pelas quatro salas que o departamento de figurinos ocupa nos escritórios da produção, instalados nas próprias casas dos moradores de Igatu.

Bia Salgado, Fúlvia Costalonga (ao centro), Valéria Stefani e Fernando Jesus: a equipe de figurinos de Besouro, que conta ainda com Mariana Reginaldo
Com o auxílio de uma equipe que chegou a ter mais de 15 pessoas durante a pré-produção, Bia Salgado, suas assistentes Fulvia Costalonga e Mariana Reginaldo, o camareiro Fernando Jesus e a figurinista assistente Valéria Stefani passaram algumas semanas preparando as roupas de cerca de 20 atores e mais de 80 figurantes. Neste caso, a preparação incluiu uma série de tratamentos para envelhecer e sujar os tecidos, para que eles ficassem não só de acordo com as roupas usadas por habitantes de uma comunidade pobre do interior da Bahia nos anos 20, mas que também cumprissem com o conceito estipulado pelo diretor de arte Claudio Amaral Peixoto para recriar esse universo.”A idéia do filme é fazer algo que, quando o espectador olhasse, praticamente sentisse o cheiro. Tratou-se, portanto, de um trabalho muito mais de textura do que propriamente de desenho ou corte das roupas”, diz Bia.
Para atingir essa textura, a equipe de figurino abusou de tratamentos à base de betume, tinta e o famoso “melecão”, uma mistura feita com chá, café, amaciante e outros produtos que, quando passados na roupa, deixam a impressão de desgaste e sujeira. O tingimento de sujeira cenográfica serve também como um filtro para a fotografia, para não chamar a atenção demais para a roupa dos figurantes.
Outro desafio da equipe de figurino foi fazer as roupas casarem com o tipo fisico dos figurantes. “Encontramos muitas pessoas negras que têm o cabelo alisado, por exemplo, coisa que não existia na Bahia dos anos 20″, lembra a assistente Valéria, que responde pelas vestimentas de todos os figurantes da locação de Igatu.
… “eu e meu caminhão”, no ponto de vista de Bia Salgado, a figurinista de Besouro:

Sem comparação: na curiosa foto do maquiador Martin Macías, o teste da peruca que o dublê chinês Tengfei Tang vai usar para substituir Jéssica Barbosa, a Dinorá, nas cenas mais arriscadas de Besouro

O terceiro assistente de direção Daniel Lentini, que dirige a figuração, cuidando para não faltar cachaça cenográfica na feira
IGATU (BA) - Na última terça-feira, 7 de outubro, a produção de Besouro completou sua primeira semana de filmagens na locação de Igatu, na Chapada Diamantina. O diretor João Daniel Tikhomiroff conversou com o blog sobre os trabalhos até o momento, e falou também sobre as suas expectativas para os próximos dias no set. Veja:
IGATU (BA) - Sim, os chineses, de novo… Aliás, não exatamente chineses. É toda de Hong Kong a equipe de dublês de Huen Chiu Ku, o Dee Dee, coreógrado de cenas de ação das filmagens de Besouro. A ex-colônia britânica que hoje é um estado autônomo encravado na China é também o berço dos filmes de kung fu orientais. E foi por lá, nos anos 80, que Dee Dee começou sua carreira de dublê. Hoje, é pendurado em cabos de aço, orientando cenas de ação ou mesmo operando câmeras em tomadas arriscadas que ele e seus pupilos se sentem à vontade. No foto acima, Dee Dee aguarda o momento de literalmente aterrisar a câmera nas mãos de Enrique Chediak, como mostra a foto abaixo, num ousado (e voador!) plano-sequência.
IGATU (BA) - IGATU (BA) - Com seus mais de dois metros de altura, o ator Sérgio Laurentino, 31, impressiona quando surge no set de filmagens caracterizado de Exu, seu personagem em Besouro. O penteado, a maquiagem e, principalmente, as lentes vermelhas nos olhos dão um aspecto fantástico à sua caracterização, que pode ser percebido antes mesmo de ele entrar em cena. Ainda assim, é por dentro que Sérgio garante ter passado por sua maior transformação para interpretar o Orixá que terá grande importância na trajetória do protagonista Besouro.
“Não me reconheço mais desde que comecei a trabalhar esse personagem. Encaro a oportunidade de fazer esse papel muito mais como uma mudança de vida, uma transformação, do que um trabalho profissional. E devo isso ao trabalho da Fátima e do Válter”, diz Sérgio, referindo-se à preparadora de atores Fátima Toledo e seu assistente Válter Lagoa, que está acompanhando as primeiras semanas de filmagem e já virou um paizão para a maioria dos atores.
“Eles me ensinaram a descobrir e usar tudo o que eu tenho dentro de mim. Isso é muito mais difícil do que meramente construir um personagem como ator. Graças a esse trabalho, mudei a forma de ver o mundo, de enxergar as pessoas. Descobri até mesmo que sou capaz de matar. Foi muito profundo”, diz ator do Bando de Teatro Olodum, que mesmo fora do set adotou a fala mansa e pausada de um Orixá.
Nos próximos dias, Sérgio, que não é capoeirista, participará de uma cena de luta. Para tanto, tomou algumas aulas para aprender a gingar e adotar a postura de capoeira. Não aprendeu nenhum golpe, mas não se preocupa com isso. “Exu pode derrubar qualquer adversário com um sopro. Tenho certeza de que isso não será problema”, brinca.

Pendurado por cabos controlados pelos chineses, o dublê Rogério corre por sobre as pedras. No alto, à direita, Dee Dee observa a cena pelo video assist
ANDARAÍ (BA) - Pela primeira vez desde o início das filmagens, a equipe de Besouro se dividiu, seguindo um planejamento que ainda vai se repetir diversas vezes nas próximas semanas. Nesta segunda-feira, enquanto a câmera do diretor de fotografia Henrique Chediak filmava na locação principal de Igatu sob o comando do diretor João Daniel, a Segunda Unidade - com a segunda assistente de direção Paula Lima, o operador de câmera Daniel Duran, o diretor de produção Luiz Henrique Fonseca e equipe - desceu até o rio Piaba, a cerca de sete quilômetros de Igatu, para fazer sequências de luta e vôo com o capoeirista Rogério de Jesus Machado. Rogério é primo, aluno de capoeira e, pelos próximos dois meses, dublê do ator Aílton Carmo, o Besouro, nas cenas de ação em que o protoganista não aparece em primeiro plano.
Debaixo de um sol de rachar, Rogério teve trabalho para jogar capoeira em meio às pedras do Rio Piaba. Sofreu com dores no pé. Depois, estreou na frente das câmeras o equipamento de vôo da equipe do chinês Huen Chiu Ku, coordenador de cenas de ação do filme. Com os assistentes Wai Lun Fung, Jian Shu, Tengfei Tang, Lian Wang e Baoliang Li no controle dos cabos e contrapesos que permitem o vôo, Huen (ou Dee Dee, como é chamado pela equipe) fez Rogério dar rasantes debaixo de uma ponte que passa sobre o rio Piaba
Abaixo, uma palinha do show do capoeirista dublê Rogério de Jesus nas pedras do Rio Piaba:
IGATU (BA) - Um momento tenso em qualquer filmagem: a realização de um plano-sequência de quase um minuto de duração, com atores dialogando e se movimentando. Tudo captado com auxílio de uma grua operada remotamente. Veja, na imagem abaixo, o trabalho preciso do operador de câmera Daniel Duran, observado de perto pelo diretor de fotografia Henrique Chediak.
… a história de uma pessoa que a gente ajuda a contar, na opinião de Denise Correia, atriz do filme Besouro, de João Daniel Tikhomiroff:
IGATU (BA) - Algumas imagens dos primeiros quatro dias de filmagens:

Câmera e microfone sobre o ator Irandhir Santos, que vive Noca de Antônia, chefe dos capangas de Coronel Venâncio

O diretor de arte Claudio Amaral Peixoto, a cenógrafa Karen Araújo e a coordenadora de arte Marina Lage trabalham no escritório da produção

Nil, assistente de maquinária, dá um trato nas rodas do sistema de trilhos para tomadas em traveling
… espera, no ponto de vista do ator Macalé dos Santos, o Tio Alípio de Besouro:
IGATU (BA) - A sequência que dá início aos desdobramentos da trama de Besouro foi filmada nesta sexta-feira: o assassinato de Mestre Alípio, mentor do herói, por um dos capangas de Coronel Venâncio. Longe desse blog revelar como, exatamente, Mestre Alípio vai morrer. Mas fica aqui o registro das instruções que o ator Macalé dos Santos recebeu do diretor João Daniel Tikhomiroff, minutos antes de rodar a cena. Repare que um tiro na perna ele já tinha levado, numa cena anterior. Faltavam agora os dois balaços de misericórdia.
***
Balaços que, na foto abaixo, à esquerda, o coordenador de efeitos especiais Márcio Farjalla preparou sem piedade. Com carga de festim, eles foram disparados pelo ator Miguel Lunardi (abaixo, à direita), que faz o papel do capanga assassino.
***
Simultaneamente, um sistema eletrônico detonou pequenos explosivos instalados na roupa de Mestre Alípio, poderosos o suficiente para romper o tecido e fazer vazar o sangue cenográfico armazenado em pequenas bolsas. Que o camareiro Fernando de Jesus (ao lado), da equipe da figurinista Bia Salgado, tratou de “estancar” com rapidez, para evitar que a roupa ficasse manchada demais para o caso de precisar ser usada uma segunda vez.
IGATU (BA) - Dois dos personagens mais importantes na trama de Besouro são Quero-Quero e Chico Canoa, capoeiristas do grupo do herói. Ambos os papéis são interpretados por baianos de Salvador. Anderson Grillo, o Quero-Quero, é um jovem professor de capoeira que - assim como o protagonista Aílton Carmo - começou a enveredar muito recentemente pelos caminhos da dramaturgia. Aos 20 anos, está em seu primeiro papel. Já Leno Sacamento, o Chico Canoa, tem 32 anos e participações no elenco de Ó Paí, Ó e Cidade Baixa. Com a experiência de quem também integra o Bando de Teatro Olodum, de Salvador, Leno aponta uma dificuldade em especial neste filme para quem, como ele, já é um ator formado: “Para construir o capoeirista que o roteiro pede, tive que desconstruir minha forma de atuar. O lance aqui é justamente esse: não atuar. Sermos nós mesmos, na nossa essência. Isso pra mim é o mais dificil”, diz.
Para Anderson, a dificuldade está em outro lugar mas, de certa forma, tem a mesma origem: acostumar-se a jogar capoeira dentro das marcações e tempos exigidos pela direção para cada cena. “Capoeira é um jogo muito intuitivo, e fazer isso na frente das câmeras exige uma concentração com a qual não estamos acostumados”, revela. E dá um exemplo curioso: “Demorei a me acostumar com o grito de ‘corta’ nas filmagens. Na capoeira, quando é pra parar de jogar, grita-se “iê!”. Então, às vezes a gente demora pra entender quando é para parar de jogar. Mas aos poucos vamos nos acostumando”, diz.
Anderson não se avexa de dizer também o quanto a partipação num filme sobre Besouro, o grande herói de todos os capoeiristas brasileiros, o enche de orgulho. “Desde que sou pequeno, ouço falar em Besouro, canto suas músicas. Sua morte à traição, com faca de ticum, é uma história que qualquer menino capoeirista de Salvador conhece a vida toda. Estar num filme que conta esta história é muito emocionante, é uma forma de a gente prestar um serviço importante para a perpetuação da história da capoeira”, conta.
…sonho, na opinião de Flávio Rocha, o Coronel Venâncio de Besouro:
IGATU (BA) - A aparência altiva do ator baiano Macalé dos Santos impressiona. Aos 60 anos, ele filmou ontem sua primeira participação em Besouro, no papel de Mestre Alípio, o espiritualizado mentor do protagonista. Aguardando suas cenas, ele circula pelo set exatamente como Mestre Alípio faria. Lenta e seguramente. Firme nas opiniões, confessa que, apesar da larga experiência com cinema (trabalhou em Zumbi, Chico Rei, A Dama do Cine Xangai, entre outros), andava cansado dos sets de filmagem. Antes mesmo de convencê-lo a fazer o papel de Alípio, apenas achá-lo para para fazer o convite já foi tarefa difícil para a produção. “Troquei meu telefone em Salvador e estava meio incomunicável. Graças ao meu amigo Zebrinha que me acharam”, disse o ator, que também é bailarino e capoeirista, referindo-se a José Carlos Santos, consultor de Orixás para o filme. Na foto, Macalé conversa com a equipe de Katia Lund, que está preparando o making of de Besouro.
IGATU (BA) - Quarta-feira foi o primeiro dia de participação nas filmagens do ator Flávio Rocha, que interpreta o Coronel Venâncio, o antagonista de Besouro na trama. Ao contrário da maioria dos jovens atores do filme, Flávio já é experiente. Ainda não havia feito um longa, mas atuou na minissérie A Pedra do Reino, da Rede Globo, que apesar de ser uma produção para a TV foi inteiramente elaborada sob a lógica do cinema, e filmada em película. Mesmo assim, Flávio não escondeu que estava ansioso para entrar nas filmagens. “Foi o dia do descabaçamento que eu tanto esperava”, conta o pernambucano de 36 anos, nascido no município de Tuparetama e radicado em São Paulo.
Veja o que respondeu Leno Sacramento, que faz o personagem Chico Canoa em Besouro:
IGATU (BA) - A cena abaixo, aparentemente, é corriqueira. Mostra o trabalho do diretor João Daniel Tikhomiroff numa das tomadas da primeira cena de Besouro, filmada nesta terça-feira. Mas pode-se dizer que é histórica também. Afinal, João ganhou 47 Leões em Cannes por seu trabalho na publicidade, mas está fazendo seu primeiro longa de ficção. Trata-se de uma estréia, portanto. E toda estréia merece registro. Vamos a ele:
IGATU (BA) - O primeiro dia de filmagens de Besouro foi inteiramente dedicado a um dos aspectos mais marcantes do filme: as danças de capoeira. A primeira delas ocorrerá logo nos primeiros minutos de projeção - uma cena que serve tanto para apresentar os personagens quanto para detonar os acontecimentos que marcam a trama. Dispensável dizer o quão espetacular é a filmagem de uma cena de capoeira. Mais que a dança em si, a coreografia envolve o diretor de fotografia Enrique Chediak (o 01 da foto), seu assistente de câmera e os operadores de áudio. Ao fundo, vemos Besouro em seu primeiro vôo.