A partir de hoje, o Blog do Besouro começa a publicar entrevistas e perfis com alguns dos grandes mestres da capoeira brasileira que de alguma forma foram discípulos ou seguidores dos ensinamentos do grande Besouro Mangangá, herói do filme “Besouro - Nasce um heroi”. Vamos começar com o baiano Antônio Carlos Gomes Conceição, o Tonho Matéria, que além de mestre de capoeira é cantor, compositor e produtor cultural.
Pioneiro no uso da capoeira como instrumento de divulgação da cultura afro-brasileira, Mestre Tonho tem 45 anos e joga capeoeira desde os 12. Como músico e cantor, já passou por grupos famosos como o Ara Ketu e o Olodum. Seu trabalho mais importante, porém, é justamente aquele que mais o aproxima da memória de Besouro: Tonho Matéria é responsável, em Salvador, pela Associação Cultural de Capoeira Mangangá, responsável pela formação de mais de 400 crianças e adolescentes e pela propagação dos ideais libertários de Manoel Henrique Pereira, o Besouro.

Blog do Besouro: Quando você começou a ensinar capoeira?
Tonho Matéria: Comecei a ensinar capoeira em 1983. Meu primeiro espaço foi na Sede do Seu Ladú e depois na Escola Parque, onde também treinava com meu mestre.
BB: O que te fez optar por esse caminho?
TM: Era o que se tinha de mais próximo na comunidade onde cresci. Nasci no bairro Pau Miúdo, em Salvador, e o lugar era muito carente, não tinha opção de atividades esportivas ou artísticas, a não ser boxe e capoeira. Treinei boxe durante dois anos, mas eu me interessei mesmo pela capoeira. Em 1985 fui campeão baiano. Graças à capoeira, hoje conheço quatro continentes do mundo.
BB: Conte-nos sobre o movimento Mangangá. Qual o seu estilo?
TM: No Mangangá não temos um estilo definido, nós jogamos capoeira e obedecemos ao que o berimbau manda. Não nos prendemos ao estilo Angola, nem regional e tampouco ao contemporâneo. Simplesmente jogamos capoeira.
BB: E quais as principais características e objetivos da Capoeira Mangangá?
TM: As caracteristicas são o treinamento forte, o jogo cadenciado e equilibrado, o respeito entre os companheiros e a valorização da integridade dos seus associados, especialmente as crianças. Os objetivos são, principalmente, manter vivo o nome de Manoel Henrique Pereira, o nosso Besouro Mangangá, e a tradição da capoeira enquanto cultura, arte, luta e filosofia de vida.
BB: Como, atualmente, você acha que está a disseminação da capoeira no Brasil?
A capoeira é a cultura que anda. É uma arte que cresceu muito no Brasil, mas que infelizmente ainda está um pouco desorganizada. Alguns mestres falam que organização acabaria com o brilho ancestral dessa arte. Eu discordo. Os negros, mesmo ainda na África, viviam em sociedade. Tribos se uniam para preservar suas culturas e manter vivos os seus antepassados. Mas aqui no Brasil, vejo que muitos capoeiristas cultuam a capoeira de uma forma muito particular, tratando-a como um patrimônio pessoal. Com isso, pouco se faz no Brasil pela capoeira como um todo.
BB: Você acha que, ainda hoje, a figura do Besouro Mangangá é idolatrada por capoeiristas do Brasil inteiro?
TM: Sim, Besouro foi sempre lembrado como um homem corajoso, que não temia nada. Alguns o viam como uma lenda, mas Besouro de fato existiu. Foi e ainda é um dos maiores símbolos de resistência para o povo, principalmente para os capoeiristas. No meu projeto, coloquei o nome de Mangangá pela energia e sagacidade que seus atos provocam em mim. Sinto-me parte disso tudo, um remanescente de seus quilombos de luta. Assim vou usando a força de Manoel Henrique Pereira para continuar com a luta da resistência negra, que é a minha forma de jogar capoeira.
BB: Quais são suas expectativas com relação ao filme “Besouro”?
TM: Nossa! Toda a expectativa possível! Acredito que o filme vai ajudar a manter viva a imagem e historicidade de Besouro de Mangangá. Estou feliz pelo meu aluno Elder, que representou Besouro ainda criança. O filme vai ser o maior sucesso, e as boas expectativas não são só minhas, e nem dos meus alunos, mas de todos os capoeiristas do mundo inteiro.